quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Aos que criticam os que criticam porque criticam



Entre os melhores católicos que conheço estão os que vieram do protestantismo. E como Deus é caprichoso, sempre há exceções.

Não digo isto com ânimo de provocação aos irmãos separados ou com espírito de concorrência, mas porque os ex-protestantes percorrem um longo caminho até a verdade, repleto de belezas e asperezas. E guardo por aqueles que tiveram a coragem de trilhar este caminho, não sem sacrifícios pessoais, uma admiração e um respeito imensos.

Por outro lado, os católicos oriundos do protestantismo mantêm, não raro, certas incompreensões em relação à nova fé, porque transplantadas daquela antiga.

Uma diz respeito ao dogma. Como, para o protestantismo, não há dogma, tudo é dogma! Não estou a dizer qualquer absurdo, ainda que pareça. A existência de artigos de religião, ou confissões, fórmulas e símbolos de fé protestantes dão apenas uma sensação de segurança. É da natureza do protestantismo o caos doutrinário, a incerteza e a insegurança da Fé. E exatamente porque desprovido de dogmas é que o protestantismo transforma tudo em dogma, ainda que de existência efêmera ou permanência provisória. Tudo é dogma enquanto for dogma!

Não quero confundir ninguém com o que vai acima. Para simplificar, é característica do protestantismo que tudo seja dogmático, enquanto não se decide contrariamente.

Algum ex-protestante, uma vez católico, pode se confundir em seu novo ambiente. Julgando que a Igreja Católica seja ainda mais dogmática que o protestantismo, o “todo dogmático” anterior teria agora, para ele, uma garantia de imutabilidade e eternidade.

Ocorre que a Igreja Católica não é mais dogmática que o protestantismo. Ela simplesmente é dogmática, enquanto o protestantismo não o é! E ser dogmática não significa transformar tudo em dogma. Eis aí uma grande dificuldade para um espírito protestante ou qualquer outro espírito limitado, distinguir.

Outra incompreensão diz respeito à comunhão eclesial. É sabido que o protestantismo simplesmente rejeita a noção de igreja enquanto comunhão real. Usará o termo comunhão em várias acepções, mas nenhuma que seja propriamente unitária, e por isso mesmo, real e universalmente válida.

Por desconhecer o sentido católico de comunhão, os grupos protestantes mantêm várias fórmulas de coesão, mais ou menos eficazes. Sem pretender fazer um levantamento das mesmas, se pode dizer que basicamente a unidade do grupo se sustenta nas noções de necessidade e realização humana. É dos vários tipos de necessidade e dos vários modos de ação do homem que resultará a multiplicidade de grupos protestantes, dos mais congregacionalistas e restritos aos mais amplos e hierarquizados.

O sentido de comunhão é bastante simples no catolicismo, ainda que profundo. Resumidamente se poderia dizer ao ex-protestante que se trata de uma comunhão na profissão da fé de sempre [recebida] que se expressa no culto comum e na obediência aos legítimos pastores.

Da junção de ambas as incompreensões mencionadas acima, alguns ex-protestantes consideram uma ofensa à fé e à unidade da Igreja qualquer crítica feita no interior da Igreja a bispos ou a grupos.

É preciso dizer que a Igreja Católica não pratica o “centralismo democrático”. Este autoritarismo é coisa de partidos de esquerda. Na Igreja Católica reina uma saudável e legítima liberdade, de tal maneira que o simples fiel pode lembrar certas verdades de fé a um bispo, e até ao Papa!

Não basta que alguém, na Igreja, seja bispo ou um grupo seja reconhecido para ganhar uma espécie de inimputabilidade. Há bispos dizendo e fazendo besteiras mundo afora e grupos, reconhecidos e louvados pelos papas (já que insistem), que persistem em certos erros graves. E não será em nome da unidade de fé e da comunhão na Igreja que haveremos de nos impor uma silente cumplicidade.

Por isso digo aos católicos que vieram do protestantismo e aos católicos que sem perceber se encaminham para ele: ser católico não é ser como aquele “cachorrinho” que enfeita painel de caminhão e balança a cabecinha conforme o mesmo se movimenta. Ser católico é ser obediente e livre, num daqueles paradoxos que somente a fé católica é capaz de harmonizar.

Os grifos não contêm no original.

Fonte: Oblatvs

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